PHILOSOPHIA
A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O que se ouve aqui, à beira deste mar
onde me encerro,
é o grito puro e cheio da voz dos deuses
como se de repente eu e o mar pertencêssemos
a um grande e vazio desterro.
A selvagem exalação das ondas
arrasta para o sul toda a cidade
enquanto um perfume antigo
vai dando um novo nome às coisas.
Ouve-se por dentro todo o sabor
da poesia
e os deuses descem num barco espalhando
um canto cavo e azul sem ninguém a ouvi-lo
a não ser o sol e eu, que o vou buscando.
Talvez não esse sol no alto, fundo, enorme, aberto
mas outro, dentro da alma, vincando o tempo,
esse Todo abstracto,
tornado concreto.
Só agora o mar se inclina para o vazio
ou simplesmente para uma breve ausência.
Só agora se dá conta do enorme deserto
e inventa no meu rosto uma agonia.
Alegre, surge um desejo de palavra
feérica, simples e originante
de toda a magia.
Subo a sombra desta varanda em latada
de uvas e figos
reluzentes nas folhas verdes de maresia
e a brisa escreve a palavra paz
que se pressente noutra palavra,
essa, que inicia a verdade
e a poesia.
Nas escadas brancas da praia do Monte Velho
o sol serpenteou as sombras
como se a mão escrevesse
toda a brancura do sul.
E uma vez mais o pequeno deus me pergunta:
Porque é que choras, diz, porque é que choras?
E eu lhe respondo, a sorrir:
Porque o mar é azul, porque o mar é azul.
Vila Nova de Santo André, Praia do Monte Velho, 5 de Julho de 2004