A PALAVRA
1.
A palavra é corpo só quando enunciada.
Convoca, então, sensações,
sentimentos, o tempo
que a pele da alma demora a cicatrizar,
outras palavras, portanto, e, com elas,
a interioridade que as corrói.
Quando lida, soberana na margem
de sombra que é a sua demarcação,
é apenas um esboço prestes a perder-se,
um soluço, uma lágrima, um desenho,
o longínquo desenho da voz.
2.
A palavra já existe no poema antes dele ser poema
e dela ser palavra. É uma névoa difusa,
um acumular de sílabas e sílabas
rasgadas pelo desespero mais feroz.
Olha-se para um corpo feminino, o seu desejo,
e pergunta-se: - «O desejo é esse corpo
ou o olhar que o percorre»?
Com as palavras sucede o mesmo: fundo é o poema,
não as palavras que o compõem. Todavia, as palavras,
as que toldam o olhar durante a escrita do poema,
são a vertigem,
uma síncope de palavras. E no nada
que antecede o poema, nesse instante
onde cada sílaba descobre o seu peso,
em que cada palavra se mede com a outra,
nesse momento de loucura súbita,
o desejo é o corpo feminino,
aquele que cega. E é da cegueira,
da sua impossível dádiva,
que irrompe o ser que a palavra enuncia.
3.
No seu manto de ouro e cinzas, a palavra resgata
o vazio. Não um qualquer vazio,
mas o que nos antecede,
o que nos encaminha para a morte.
Nesse entrelaçar, a palavra é vermelha,
um alvoroço de sangue, um estremecimento
de pão que, mesmo sobre a mesa, é semente,
sol iludido pelas colheitas.
Também o cume das videiras, de tão verde, é feroz
no desenlace que suporta. Como feroz é a palavra,
aquela que liga.
Aqui começa o sentido. E Deus?