Resposta dialéctica à poética de João Ramos
por Luís Nóbrega
Não é por haver ramos, e até muitos, que se poderá podar às cegas.
Ainda hoje falávamos das varas, das hastes, dos rebentos descobridores que são como antenas sensíveis da terra-mãe. Enfim; eu dizia, com a minha pseudo-incongruência rural que às vezes passa por conhecimento vegetal, intuitivo, é claro, dizia então que se devem cortar os torcidos, os meleados e os ladrões, (e depois falo contra os ditadores), mas mesmo que se cortem nos trâmites da arte e atendendo à especificidade cástica das cepas centenares parece que nada resiste à “cáustica genética” trespassando a constancidade do “pesadelo”. O teu, e o nosso também quando no-lo mostras.
Consciente de uma memória quase esmagadora, feita de vácuo peso irrespirável, já quase desistente de “acordar corações” mas que ainda ilumina azuis esfomeados de gente de olhos, de olhos em frente.
Em frente, a urgência parece ser cada vez mais quando... quando se corre, se grita, se procura uma vitória colorida, e se luta rodeado de repressão colectiva, electiva, contra a pose espampanante da vaidade, aqui a «certeza» torna-se viagem vã e estéril, “cada vez mais” inicias “Latitudes”, com longitudes e marcas rotas num mapa astral onde a viagem, a tua, leva ao sono dos cansaços com sorrisos que se ouvem.
Ouviste então a gente que não foge de ser só gente e olha de frente a criança que ainda não soube ser.
“então”; “frente a frente” remexendo, remoendo labirintos de caminhos cruzados em momentos quase parados porque “há janelas deformadas pelo tempo” no renovar da imagem o espelho vibra convexo, desconexo de desistências, complexo de vontades e é precisa toda a coragem para chegar até ao sorriso.
Ah! Também comes, bebes, e dormes e o mais que é preciso para ter uma utopia. São os ramos meleados de, sei lá, um dia, dois, de toda uma primavera, que só sonhavam em ter algumas folhas encostadas à telha antiga. Uma utopia de frescura mineral.
São viagens tais como as das “mãos impossíveis” que te acompanham as sedes, as fomes, em tudo em volta, o que gira, o que há, o que achas longe, o que com a “débil palavra” gritas, gritas.
Talvez para “nunca sentir o Inverno”.
No entanto, num movimento infinitamente mineral encontras harmonias. Porque pressentes ausentes de rostos marcados, paralíticos da alma, tão impenetráveis e duros que achaste melhor e mais alto ir “escrever pedra”.
Que “situação”!?
Novamente insistes no azul. Na tepidez da ternura feminina; depois serena; depois cálida; ternura húmida, tens razão: o húmus é tudo, é terra palpitante, é fonte de todos os sabores, de todos os cheiros, dos únicos gestos verdadeiros, é, acima de tudo, a própria vida (com vida própria), esperança que importa repetir. Insistamos na esperança.
(em resposta caquéctica à arte poética do Ramos, ripostamos: - “os homens “ não “estão desertos”, estão sozinhos em espaços terrivelmente abertos e têm medo de soltarem gritos certos.)
As “gentes pequenas” podem ter as montanhas que lhes dás, que lhes inventas, que sonhas e contas, que fotografas do cimo das nuvens mensageiras, com as quais passas com as tuas “asas verdadeiras” e então entregas à gente “montanhas inteiras”.
(Poeta não serás? Então que dirás?)
Que dirás quando as palavras não tiveram dedos, nem mãos, nem braços, nem língua, nem pernas, nem narizes, nem pestanas carregadas de letras e mais letras repetidas, renovadas, redimidas, reparadas e ás vezes paradas mas
Poeta serás sempre em qualquer dia enquanto houver um gesto que te “invada poesia”.
Só é quem se permite ser, por entre incertezas, verdades amargas, ilusões, solidões, sensações, decepções, alegrões, chorões, (lá estou eu com a mania dos rimões), não, não e não, afinal, mas sem final, só sente quem se consente sentir. O tempo que diga o resto.
Que é isso de te expropriarem um silêncio?
Por mais águas que passem e que os lugares mudem jamais conseguirão amputar-te os regressos.
(É uma frustração não saber falar de amizade, vou andando, se podendo vou-me podando.)
Os amigos deveriam ser como as árvores, crescem, morrem ou definham à sombra de um qualquer muro que a vida lhes pôs ali, também se transformam, mas, renascendo, em cada primavera volta, intacta, a memória de cada nervura de cada folha, de cada verde, do mesmo verde, da mesma dança com o vento, do mesmo fruto com o mesmo sabor.